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riscos_e_rabiscos

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O Homem do Talho

Aqui em frente sempre existiu um talho. Esta loja estava destinada a ser o que sempre foi. Vários donos, o mesmo ofício. Parece que até as lojas não fogem ao seu destino.

 

O primeiro dono, o sr. G., esteve anos ali. Eu acordava ao som ritmado e conciso do seu martelo de corte. Mas se isto não me impressionava, o ar do sr. G, fazia-me não gostar dele.

Era um homem grande, daqueles que crescem mais do que a medida, possuidor de uma grossa corrente de ouro que enfeitava o seu pulso direito, mostrava sempre um ar austero, que fazia lembrar aqueles troféus cabeças de touro com que os toureiros tão orgulhosamente enfeitam uma qualquer parede de sua casa.

 

Os anos foram passando, o sr. G. envelhecendo e a qualidade da carne, acompanhando fielmente quem a vendia, começou a ser pouco recomendável. A clientela abrandou e o negócio fraquejou.

Velho e sem freguesia, resolveu ir desfrutar as propriedades que o negócio um dia lhe permitira comprar.

 

E vieram outros e mais outros donos. Até que apareceu o que cá está hoje. A abertura da loja foi um sucesso, quase com honras de estado. Simpatias e balões para todos e um sem mãos a medir que chegassem para a freguesia. Todos lá foram: os que precisavam, os que não precisavam, os que queriam provar, os que queriam cuscar, os que queriam dizer bem e, principalmente, os que queriam dizer mal.

 

E até desta vez o novo dono estava destinado ao karma que paira sobre esta loja. A freguesia migrou para outros sítios e a única que ainda se mantém são os ciganos.

 

O dono passa os dias à porta com o seu bigode farfalhudo à Chalana a fumar, a trocar dois dedos de conversa com alguém que lhe pare à porta, e a contar os minutos para fechar a loja.

A sua bata está sempre suja, talvez para lembrar que ainda resiste estoicamente à falta de freguesia. E como um homem nunca perde a dignidade nem a vaidade, mantém a sua carrinha bêemerdabliu orgulhosamente, como se fosse uma extensão do seu próprio corpo à qual dedica toda a atenção e dedicação.

 

Existe Karma e pré-destinação? Talvez. Mas que há coisas que nos deixam a pensar…